"Alguém lhe segure!"

"O Máskara" (The Mask, 1994)

Estás satisfeito consigo mesmo? Orgulhoso de tua conduta perante o olhar alheio? Das atitudes tomadas ou hesitadas em momentos de decisões, das direções que as coisas estão seguindo? Tens a fama de quê? E por quê? Estás cumprindo rigorosamente as regras não escritas da sociedade, como ter educação com os mal-educados, sorrir para o inimigo ou dizer saúde para quem espirra? O que faria de diferente se soubesse que ninguém iria te julgar? Estás realmente sendo você, ou durante todo seu processo de vida moldou-se para alguém, por alguém, de acordo com alguém?

Atualmente é banal afirmar que as pessoas se moldam socialmente. A ausência de algo dentro de nós faz, às vezes, ficarmos insatisfeitos com nosso modo de ser. Quem nunca acordou com a idéia de dar um salto na personalidade? "Queria ser menos isso, mais aquilo... Ter menos orgulho, mais humildade, menos qualidades, mais defeitos, menos defeitos, mais qualidades, menos alto, menos gordo, mais ousado, menos pragmático, mais disciplinado, mais indisciplinado, mais preguiçoso, menos proativo...".

Não. Isto não é um texto de autoajuda que trará a fórmula do sucesso; menos ainda uma crônica filosófica que desvenda os mistérios de nossa personalidade, que nem sabemos o que é. Isto é um apelo para refletirmos sobre o que realmente queremos responder quando nos perguntam: "Quem é você?" Ou, quem sabe, uma indagação mais subordinada, como: "Quem você gostaria de ser, e por quê?".

Brady Pitty e sua estética simetricamente perfeita que atrai mares femininos e masculinos... Nada mal, exceto pela última parte. Ou igual à Penélope Cruz e sua beleza inqualificável, que atrai mares masculinos e femininos... Bono Vox e sua aura de Gandhi irlandês? Gene Kelly cantando na chuva? Einstein e a benção do intelecto? Bill Gates e sua mão de ouro? Marilyn Sexy Monroe? Pelé e... Pelé!

Não importa, pois não é disto que estamos tratando. Deixemos de lado tais habilidades inatas ou adquiridas de pessoas históricas e centremos em um personagem que expresse o poder absoluto do "eu". Um elemento fictício (é claro) retratado no cinema dos anos noventa, que carrega dentro de si a supervalorização do ego, além daquilo que buscamos a todo o momento: essa tal felicidade.

"Todos nós usamos máscaras, metaforicamente falando, para adotarmos uma imagem socialmente mais aceitável". É o que o filme americano "O Máskara", 1994, dirigido por Chuck Russel e protagonizado pelo comediante Jim Carrey, diz. É irrelevante o roteiro do filme para contribuir com o tema proposto aqui, mas é importante observar o comportamento do personagem principal, Stanley Ipkiss.

Antes de transformar-se no famoso sujeito da face verde, Stanley é um homem comum, com um emprego comum, visual comum, desejos comuns e um carro bem velho. Seu problema é não conseguir ser o que seu potencial realmente permite. Aliás, os únicos traços de "ser" que ele consegue exalar é de ser reprimido e fadigado, como se todos os dias fossem uma eterna segunda-feira chuvosa. É o que hoje chamamos de "bananão", e isso fica evidente em uma cena em que ganha dois ingressos para um concerto e convida uma "amiga de trabalho" para ir com ele, romanticamente, porém, tal amiga o convence de dar as duas entradas a ela, para que ela possa ir com uma amiga. Igual a muitos filmes hollywoodianos, este também trata o seu protagonista como um completo fracassado que, por um motivo surreal transformou-se no centro das atenções, além de galanteador, poderoso e convincente.

Porém, não são os poderes que ele adquire ao colocar a máscara que o tornam alguém diferente. O fato do personagem Máskara alterar a realidade com mágicas mirabolantes como guardar uma bazuca no bolso da calça, transformar uma bexiga em uma metralhadora, girar e correr à velocidade impossível ou roubar um banco como se estivesse em um playground só demonstra o que a psicanálise já constatara: o "id", um desejo inconsciente, suprimido e primitivo do homem em ser mais subversivo, cravado por Freud por volta de 1900. A maneira como ele se senta em uma cadeira, a forma como olha para as pessoas, as piadas sarcásticas e diálogos insanos, os passos de dança, a objetividade e principalmente o sorriso maquiavélico que nunca desaparece fazem dele alguém que a sociedade não precisa, mas que todos gostaríamos de ser.

Quem nunca desejou viver a plenitude das coisas? Discursamos a todo o momento que "não interessa a opinião dos outros, o que importa é o que eu penso de mim", mas sabemos da necessidade de sermos bem-vistos, queridos ou aceitáveis. Em determinadas situações somos robôs pré-programados, para que ninguém repare na gente, como a maneira que nos comportamos dentro de um elevador, por exemplo, não olhando para as pessoas, não falando, não respirando e acompanhando a mudança dos números dos andares, como se fosse uma bomba-relógio prestes a explodir. O sujeito de cabeça verde jamais seria assim. No mínimo, embalaria uma dança cubana em pleno 9° andar. Em outras situações, queremos ser notados; ou achas que a roupa seletiva que colocas no sábado a noite é somente para você?

A máscara dá a Stanley a possibilidade de mostrar a melhor versão de si mesmo. Alguém com um comportamento nunca visto antes, transbordando narcisismo, mas trazendo consigo uma completa disciplina interior impedindo-o de afogar-se nas armadilhas da vida. Desta forma, este anti-herói chegaria ao fim da vida com uma existência tão vasta que mal caberia em uma simples bibliografia. Paradoxalmente, a máscara o liberta de todas as outras máscaras que antes usava, trazendo até ele um efeito zoom, mostrando ao mundo o verdadeiro Stanley Ipkiss. Agora, "o bananão" parece saber o que quer, quando quer e como quer. A amiga de trabalho com quem tentou um encontro já não é o bastante; Tina Carlyle (Cameron Diaz), sensual loira do Coco Bongo, a boate mais badalada da cidade, talvez seja.

Reprimir nossa personalidade traz diversos danos à saúde. Sintomas como depressão e stress estão diretamente ligados ao nosso inconsciente, e se este não for liberado de forma natural podemos correr riscos de vivermos eternamente sob uma máscara que não nos pertence. Vivemos em comunidades há milênios de anos, mas o que mais queremos é, plagiando uma velha banda do velho-oeste, "ter todo dia tudo isso o que a vida tem de bom". O clichê shakespeariano "ser ou não ser" parece ainda não ter sido assimilado.

Apesar de o filme retratar o objeto da máscara como uma droga libertadora poderíamos defini-la como um simples "choque"; mas será que precisamos levar esta carga de energia para acordarmos? A máscara era mesmo necessária para que Stanley trouxesse seus desejos a tona e conquistasse seus objetivos? Esta é a eterna jornada rumo a nossa essência.